Aos 70 anos, o que ainda se pode esperar da vida? | Rubens Caratta

Aos 70 anos, o que ainda se pode esperar da vida?

Talvez o maior sofrimento da velhice não seja a perda da força física, mas a perda da relevância social.

Placa de trânsito em uma estrada com os dizeres liberado para leitura e idade máxima de condução

Recentemente, ouvi num podcast um trecho de uma fala que ficou ecoando na minha cabeça: “Hoje acordei e me lembrei que tenho 70 anos. O que ainda posso esperar da vida?”

Não há uma resposta única. Aos 70 anos, talvez as expectativas mudem de natureza. Em vez de buscar mais em quantidade, passa-se a buscar mais em qualidade: liberdade, relações verdadeiras, novos aprendizados, projetos com propósito e a serenidade para distinguir o que realmente importa.

Mas há algo que me incomoda.

Vivemos cercados por expressões como “melhor idade”, “envelhecimento ativo” e “longevidade”. Bonitas no discurso. Nem sempre verdadeiras na prática.

Continuamos valorizando desproporcionalmente a juventude, a produtividade e a velocidade. Quando alguém envelhece, muitas vezes deixa de ser reconhecido pelo que é e passa a ser lembrado pelo que já não faz.

Em Portugal, por exemplo, isso chama a atenção. Apesar de ser um dos países mais envelhecidos da Europa, ainda são frequentes as piadas sobre “velhos”, a impaciência no atendimento, a invisibilidade social e um paternalismo que frequentemente confunde idade com incapacidade.

Existe um fenômeno curioso. As pessoas dizem respeitar os idosos até que tenham de conviver com um. No trânsito, nas filas, no trabalho, na tecnologia e, às vezes, dentro da própria família, esse respeito nem sempre se traduz em atitudes.

Talvez um dos maiores sofrimentos da velhice não seja a perda da força física, mas a perda da relevância social. Deixar de ser ouvido, consultado ou considerado. Isso é muito diferente de simplesmente envelhecer.

Apesar disso, conheço pessoas de 70, 80 e até 90 anos que continuam estudando, escrevendo, trabalhando, viajando, criando vínculos e iniciando novos projetos. Não porque neguem a idade, mas porque se recusam a permitir que a sociedade determine o seu valor.

Enquanto escrevia este texto, lembrei-me de algumas frases da escritora e filósofa Simone de Beauvoir: “A velhice é o segredo mais bem guardado da condição humana.” Ela reflete sobre como a sociedade contemporânea evita falar sobre o envelhecimento, tratando-o muitas vezes como um tabu num mundo obcecado pela juventude e pela produtividade.

Há outra frase também: “Viver é envelhecer, nada mais.” Ou seja, desde o momento em que nascemos, cada dia vivido é, por definição, um dia a mais de envelhecimento. Não há separação real entre viver e envelhecer.

Enquanto somos jovens, falamos dos idosos como se fossem “os outros”. Até o dia em que descobrimos que nos tornamos um deles.

Talvez o maior desafio não seja viver até os 70 ou 80 anos, mas construir uma sociedade em que chegar a essa idade não signifique perder dignidade, voz, utilidade e lugar.

Infelizmente, ainda estamos longe disso.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação individual. Se algo aqui se aproxima do que você vem vivendo, conversar com um profissional é o caminho para entender o seu caso.

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Rubens Caratta

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